Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
Central de Notícias - Comportamento
O toque feminino faz a diferença na joia brasileira, em todos os sentidos. A exuberância colorida de nossa joalheria vem repleta de organicidade, romantismo e paixão, fruto do trabalho árduo e dedicado de designers, operárias, artesãs, vendedoras e administradoras. Unidas, geram uma joalheria fértil de cor e emoção, resultado de uma interação simbiótica entre as criadoras e sua mãe-natureza generosa e receptiva.
A mulher e o setor joalheiro no Brasil
Segundo a designer de joias, colunista do InfoJoia e autora do livro “A Joia – história e design”, Eliana Gola, o avanço da mulher como força de trabalho no mercado joalheiro se acentuou a partir dos anos 70, com uma maior emancipação feminina. “Nas áreas de design e criação, elas são maioria absoluta, mas na parte de produção, ainda existe uma maioria masculina”, afirma.
O consultor Julio Cesar da Silva, diretor da Juliu’s Assessoria, confirma as informações da professora Eliana e acrescenta: a tendência de troca da mão-de-obra masculina pela feminina é uma realidade. Nas fábricas, em média 50% dos funcionários são mulheres. Em algumas, o número chega a 70%. No varejo, as mulheres são maioria absoluta, ocupando cargos de vendedoras, gerentes e supervisoras.
"A joia sempre teve na alma feminina a sua grande fonte de inspiração. Atualmente, cada vez mais, as joias - além de serem feitas principalmente PARA as mulheres - também estão sendo feitas PELAS mulheres, que até pouco tempo dominavam apenas as posições das equipes de venda do varejo. Hoje todos os elos da cadeia produtiva estão ‘mais femininos’. Designers, empresárias, executivas, ourives, polidoras e até mesmo a frente de governanças do setor", brinca Carla Pinheiro, sócia da indústria de joias Art'Lev e presidente da associação dos joalheiros do Rio de Janeiro, a AJORIO, que completa: “Parece que as mulheres chegaram para ficar! Bem devagar, com muita sutileza e planejamento, elas influenciam cada vez mais os rumos do setor no Brasil. No meu ponto de vista, sem ser feminista, as mulheres estão sendo fundamentais no processo de profissionalização, formalização e expansão do ramo no país. Não querendo deixar os nossos queridos e competentes homens totalmente fora de toda essa transformação do mercado, mas devemos também às mulheres a decisão mais do que acertada de deixarmos de ser 'pirateiros' para sermos criadores de design reconhecido e premiado internacionalmente", afirma Carla.
Especialmente (mas não somente) na área da criação de joias, as mulheres vem ganhando espaço crescente. Na edição 2010 do Prêmio IBGM de Design, todas as vencedoras das 3 categorias são do sexo feminino. Mas nem sempre foi assim.

As vencedoras do XV Prêmio IBGM de Design Maira Paiva, Carla Abras e Aline Miranda, respectivamente nas categorias Lapidação Diferenciada, Brazilian Ear Couture e Joias da Natureza

As joias premiadas
O começo
Há quase um século, foi uma imigrante do Japão, de nome Rosa Okubo, uma das primeiras mulheres a atuar num mercado até então estritamente masculino. Rosa Okubo vendeu sua primeira joia para poder alimentar seus filhos. Era uma joia sua e a partir daí, Rosa percebeu que poderia fazer daquilo um negócio.
Entre este fato e a abertura da sua primeira loja, em 1934, muitas barreiras foram quebradas. “Ela não só estava entrando em um mercado absolutamente masculino, como estava trabalhando, coisa que pra época, era uma novidade e tanto!”, conta Mario Massao, neto de Rosa Okubo. “Ela se destacou basicamente pela criatividade que tinha. E por ser mulher, por usar joias, ela sabia o que era confortável ou não, se o brinco apertava na orelha, uma vantagem sobre os homens, que usavam no máximo abotoaduras. Inclusive, quando ela começou a fabricar, ela fazia com que todos os ourives usassem os brincos de pressão por pelo menos 30 minutos, pra saber se não ia machucar ou incomodar quem fosse usar”, explica o neto.
Mario, que hoje está à frente da empresa deixada pela avó juntamente com membros da quarta geração da família, conta que aconteceu uma verdadeira inversão no setor joalheiro. “Quando minha avó começou, só os homens trabalhavam com joias. Eram normalmente imigrantes, com formação de banca. As mulheres só usavam as joias, nem compravam.
Hoje, elas são a maioria quando falamos em design, em criação, em comercialização. Na produção, ainda não são maioria, mas talvez por que seja a parte mais rústica, tem que lidar com ácidos e outros materiais... as mulheres ficam com a parte mais bonita, mais delicada... ficamos com muito orgulho em falar isso e lembrar que foi a nossa avó quem abriu as portas desse mercado para o público feminino. Ela foi conhecida como a Rainha das Pérolas, a Dama das Joias, e colaborou pro setor ficar mais feminino, pra mulher ser reconhecida como uma boa força de trabalho no ramo”, ele completa.
A joia traduzindo a feminilidade
“Podemos não estar presidindo as grandes empresas joalheiras do Brasil, porém somos tantas, em tantas pequenas empresas espalhadas pelo país, que com certeza já fizemos inúmeras mudanças”. Essa afirmação é de Roseli Duque. Ex-presidente da Ajesp, a empresária é diretora da Guilherme Duque, tradicional empresa do setor joalheiro e uma das indústrias fundadoras da Feninjer. Roseli sempre trabalhou na empresa da família, e como acontece com tantas mulheres, enfrentou algumas dificuldades no início de sua carreira pelo simples fato de ser mulher, mas acredita que o cenário hoje é mais favorável. “Penso que estamos em um momento bastante especial, em que nós mulheres podemos contribuir muito para o setor joalheiro, temos que ser profissionais focadas, com projetos e metas bem definidas. Não sinto mais a barreira que houve no passado. Agora não depende mais de sexo e sim de capacidade, comprometimento e profissionalismo”, afirma.
Roseli diz ainda que a joia brasileira deve parte de seu sucesso ao trabalho das mulheres: “A mulher brasileira tem opções bem definidas para seu uso pessoal. Quando o IBGM decidiu investir no design de joias brasileiras foram definitivamente as joalheiras, sejam elas designers, vendedoras ou fabricantes, que conseguiram traduzir estas ‘expectativas’ em joias que hoje são reconhecidas em todo o mundo”.

Guilherme Duque
A grande dádiva de ser mulher
A premiada designer Ruth Grieco é outro forte exemplo da força feminina na joalheria. Atuando no setor há mais de 30 anos, ela foi testemunha das mudanças culturais que a joalheria presenciou. “A partir dos anos 80, quando a joalheria brasileira com seu design característico passou a ser observada, a mulher tem tido papel relevante nesta área. Minha especial admiração é pelas mulheres de Minas Gerais, sensíveis e criativas, que têm enaltecido o nome do Brasil nos concursos nacionais e internacionais. Não tenho dúvida que as brasileiras, de modo geral, influenciaram a moda da joalheria no mundo, com suas criações de características espontâneas, livres e coloridas” afirma.
Ruth conta que quando trabalhou em uma banca de ourives, ao lado de outros homens, temeu sofrer algum tipo de preconceito. “Ainda mais por ser loira”, brinca a designer. Porém, para sua surpresa, no decorrer do trabalho a convivência foi pacífica e, segundo ela, gratificante e prazerosa. “Não tenho dúvida que ambas as partes se completam. Me surpreendia observando aquelas mãos masculinas, enormes, realizando tarefas delicadas, em meio a florzinhas e folhinhas, pelas quais tenho paixão, e tudo terminava muito lindo. Continuo trabalhando com homens e mulheres, todos desempenhando múltiplos papéis e tenho certeza que é o espírito de cooperação entre as partes resulta sempre num bom trabalho”, diz.
Ruth acredita então na igualdade? “Não tenho nenhum preconceito, mas acho que as mulheres, nesta área, fazem um pouquinho melhor”, diz, mais uma vez em tom de brincadeira. Mas complementa, explicando por que a mulher pode fazer essa diferença: “Ser mulher é a grande dádiva de ser mãe, esposa, profissional e ter todos os dias a alma aberta para poder ajudar alguém a viver sempre melhor”.

Santa desigualdade!
A designer goiana Adeguimar Arantes sempre encarou a questão da desigualdade entre homens e mulheres de outro jeito: sentindo-se, sempre, beneficiada por ela.
A mais nova de cinco filhos, sendo a única e esperada menina, sempre foi a protegidinha da casa. Depois, na adolescência, contavam com a proteção dos irmãos, mais velhos, e que já haviam passado por essa experiência.
Já adulta, era a única mulher em uma turma de 40 alunos na Agrotécnica Federal de Rio Verde, e era a mascote da turma. Foi lá inclusive que conheceu seu marido, com quem se casou no salão nobre da escola. Quando estudou joalheria no Centro de Gemologia de Goiás, ela era a única mulher com um bebê de poucos dias. “Todos se encantavam e puxavam fio para mim, ninavam o garoto, depois quando iniciei meu trabalho de produzir joias .. que diferente uma mulher que faz joia!”, diz. “De novo a história se repetia e então deduzi que é um luxo ser desigual... esta foi uma grande oportunidade de ser feliz e nunca desejei viver de outra forma, tive uma vida significativa, produtiva, feliz em condições já existentes ou criadas por mim, para viver todos os sonhos que sonhei acordada”, completa.
Quando questionada como vê a atuação das mulheres no setor, Adeguimar é enfática: “quase majoritária, pelo menos no segmento de Arte. Isso mostra que é um mercado que cada vez será mais feminino, eficiente”, afirma a designer.
Adeguimar ainda fala na diferença da joia produzida pelas mãos femininas: As peças têm melhor acabamento, beleza, primam pela qualidade, uma vez que as mulheres são mais detalhistas, observadoras, comprometidas. Não costumam achar que ‘assim mesmo’ está bom”.

Adeguimar Arantes
Tato fino
A joalheira Carla Amorim revela o segredo: “Mulheres têm o tato fino naturalmente. Estão habituadas a fazer as próprias unhas, costurar e bordar, cozinhar, maquiar, usar a pinça para depilar...isso tudo ajuda nos serviços de ourivesaria”

Carla Amorim
Uma questão de sensibilidade
Maria Cecília Oliveira Marques - que é Diretora de desenvolvimento da Cecy Joias, indústria que tem mulheres ocupando cargos de liderança em todas as suas áreas - declara: “A gente percebe que quando as mulheres conseguem identificar os talentos da sua natureza feminina - como intuição, sensibilidade, capacidade de compreensão, entre outros - elas se saem muito bem, pois conquistam a confiança de seus subordinados, são ouvidas e vistas como um bom exemplo na empresa”.

Cecy Joias
Revendo valores
Indagada se sua condição de mulher representou alguma barreira em sua trajetória profissional e de vida, a presidente da associação carioca, Carla Pinheiro, revela: “Uma vez eu estava na entrada da Ajorio esperando para abrir uma palestra, o auditório estava lotado. Um rapaz chegou e não tinha lugar para ele sentar. Bastante aborrecido e de uma forma pouco elegante, ele me "ordenou" que pegasse uma cadeira para ele poder se sentar. Sem falar nada, obedeci prontamente... Quando a diretora da Ajorio, Angela Andrade (grande mulher!), anunciou o meu nome e cargo, subi ao tablado olhando para o rapaz que se afundava na cadeira de tanta vergonha e lhe enviei um sorriso... Ao final da palestra ele veio me pedir desculpas alegando muito azar por ter se dirigido logo à presidente! Plagiando uma campanha publicitária que fala exatamente sobre isso, eu disse: 'Você está precisando rever os seus valores'!
Carla complementa: “sempre vivi e convivi com todas as dores e delícias de fazer parte dos ambientes predominantemente masculinos. Irmã caçula de dois homens, filha de um paizão, engenheira eletrônica, ex-consultora do mercado financeiro e atualmente esposa, mãe de um menino e 'boadrasta' de um adolescente... Ufa! São muitos homens para uma só mulher... Mas posso confessar? É uma maravilha: você é sempre a mais linda, a mais inteligente, a mais amada, fora os paparicos, carinhos e mimos. Parabéns para todas as mulheres, mães, amigas, amantes, trabalhadoras e sempre guerreiras!"

Art'Lev
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