Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

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Central de Notícias - Joalheria

Biojoias: a diversidade brasileira


O que são biojoias? A resposta não é única, nem simples. Numa primeira tentativa de definição, biojoias são peças produzidas com material de natureza orgânica, vegetal ou animal, como sementes, folhas e frutos, capins, madeiras, couro de animais, além de outras partes destes, como chifres e ossos, empregando ou não metais preciosos. Antes conhecidas como “bijuterias finas”, por apresentarem metais nobres como a prata e o ouro, as biojoias têm adquirido outro status, por valorizar e difundir a cultura nacional e nossa natureza diversificada e generosa.


 

Sementes de tucumã


Mas o que difere uma biojoia do artesanato encontrado em feiras e barracas espalhadas pelo país inteiro, principalmente nas áreas quentes e litorâneas? Podemos arriscar um caminho inicial para essa diferenciação: o design das peças e o conceito presente nas criações.

Hoje, muitos cursos de montagem de joias e bijuterias ensinam como o profissional deve trabalhar o design das criações, como ele monta uma coleção agregando valor ao seu produto.

Outro possível fator de diferenciação das chamadas biojoias para as bijuterias artesanais que também empregam material de natureza orgânica seria: tecnologia. Como garantir que os materiais orgânicos não fiquem úmidos, mofem e se deteriorem e ainda contaminem outras biojoias que estiverem perto deles?

Sucesso

O uso de sementes e outros materiais naturais em adornos, mais do que uma alternativa economicamente viável e na grande maioria das vezes ecologicamente correta, é uma forma de identificação da cultura brasileira. Colorida, alegre, de múltiplas formas, heterogênea.

Rita Prossi, amazonense que há 15 anos atua no setor e foi uma das precursoras no uso da biodiversidade na indústria joalheira, diz que a receita da biojoia brasileira é a seguinte: “Um design inovador, um resgate cultural, aprofundamento de pesquisa nas iconografias, no folclore e em nossas raízes, ou seja, uma joia com a história de cada região brasileira. A biojoia marca o surgimento de uma joia alternativa, leve, solta com identidade e valor agregado”.

“Biojoia para mim não necessariamente trata-se de uma peça feita com metal. Na minha ótica significa uma joia feita com sementes, fibras naturais e todo tipo de matéria-prima que a natureza nos ofereça de forma gratuita, possibilitando a nós designers eternizar a beleza da natureza através das nossas criações”. Essa afirmação é da designer baiana Gabriela Lisbôa. Seu trabalho é principalmente com a casca do coco de piaçava, mas ela também usa sementes e outros materiais, como osso de boi e madeira.

Para a designer paulista Meire Bonádio, a definição de biojoia é clara: “No meu trabalho, chamo de biojóia todo material natural, no caso o capim dourado agregado a metais e pedras naturais, brilhantes, diamantes e pérolas”.

Sustentabilidade


 

Alianças de ouro com semente de tucumã (Rita Prossi)


A preocupação ambiental é outro ponto em comum entre os profissionais da biojoia. Rita Prossi afirma que a biojoia envolve diversos conceitos: “É a joia do presente e do futuro, é um resgate dos melhores conceitos do que é correto, é a joia ecológica, é uma joia com sustentabilidade, com respeito à natureza”, enfatiza. Rita utiliza a matéria-prima que consegue através de parcerias com tribos indígenas e comunidades de artesãos. “A biojoia tem que ser autossustentável, com o aproveitamento responsável e justo da mão-de-obra, sem exploração”, afirma.


 

Colar de prata com casca de coco de piaçava, coco preto e osso de boi (Gabriela Lisbôa)


“A minha matéria-prima eu adquiro através de ONGs que atuam na coleta seletiva das comunidades ribeirinhas da Amazônia e por catadores do sul da Bahia”, conta a baiana Gabriela Lisbôa. Já Meire Bonádio trabalha com material com certificado de origem, respeitando todas as normas ambientais do IBAMA.




Capim dourado


O capim dourado

Muitos artesãos e designers trabalham com biojoias, cada um empregando aos materiais os seus próprios conceitos e inspirações. Em comum, o valor agregado por materiais inusitados, e muitas vezes, exclusivos do território brasileiro, como o capim dourado.

Planta nativa do Jalapão, no Tocantins, essa é a matéria-prima principal das criações de Meire Bonádio.

Meire faz parte de uma cadeia produtiva que envolve aproximadamente 50 famílias que trabalham de forma artesanal, numa cidade do Tocantins chamada Ponte Alta. A matéria-prima – o capim dourado - já vem desta cidade trabalhada nos formatos de mandalas, triângulos, quadrados e outras, criadas pela designer. Os artesãos recebem os desenhos via e-mail com explicações e desenhos da maneira mais simplificada possível, para que possam ser confeccionadas, já que o capim não aceita facilmente ser dobrado.


 

Colar de ouro com capim dourado e ágata (Meire Bonádio)


 “O capim dourado é um produto natural, portanto não precisa de nenhum tratamento especifico. Ele é uma fibra que para ter as formas desejadas tem que ficar de molho na água limpa por um período. Com ele molhado, é só dar asas à imaginação e transformá-lo em joias das mais variadas possíveis”, revela Meire.

Madeiras

Trazer a natureza para os adornos é uma prática antiga, ancestral. Os índios sempre usaram sementes e madeiras para isso, bem como os negros que vieram nos navios para o Brasil. Bastante atraente para uso em joalheria, as madeiras, mesmo as mais duras, podem ser mais facilmente trabalhadas do que os metais. As mais utilizadas para esse fim são as espécies imbuia, muiracatiara e canela.


 

Pulseira de prata com palha de arumã (Rita Prossi)


Esqueletizados


 

Brincos de ouro amarelo com folha seca (Amarjon)


Mas o que dizer das peças que trazem a verdadeira natureza dentro delas? É essa a proposta da Amarjon, empresa joalheira de Minas Gerais. As peças são confeccionadas com folhas e escorpiões naturais, secos e esqueletizados, em um processo exclusivo que deixa somente as fibras. Com banhos de ouro amarelo ou OMK, um composto à base de platina, paládio, cobre e estanho, as peças são únicas, pois seguem os desenhos das folhas e dos aracnídeos, ganhando mais um importante quesito: exclusividade.

Se a produção em massa reproduz as formas infinitas vezes, as criações que utilizam os elementos da natureza são únicas em sua essência: as sementes possuem formatos e tamanhos levemente irregulares, a madeira tem uma cor mais ou menos acentuada, as folhas apresentam ranhuras quase impossíveis de serem copiadas.


 

Berloque de escorpião de ouro amarelo e OMK (Amarjon)


Sementes

Muito utilizadas nos trabalhos artesanais, as sementes oferecem uma grande variedade de opções para os designers. Bons exemplos são as Lágrimas de Nossa Senhora (também conhecidas como contas de lágrimas ou capim rosário, tradicionalmente empregadas na confecção de terços) com sua cor cinza azulada; a jarina, conhecida como marfim amazônico por sua cor branca e sua dureza; o inajá, semente de uma palmeira típica da região amazônica, ou a semente do açaí, ao natural ou tingida. Sementes que dão vida a pulseiras, colares e todo tipo de biojoia que se possa imaginar.

De todas as matérias-primas, as sementes são as que requerem uma maior atenção no tratamento, pois se deterioram com certa facilidade.


 

Colares de jarina  tingidas e fatiadas (vermelhas) e inteiras (branco); colar de semente da paxiúba (marrom); pulseira de cascalhos de jarina tingida e pingentes de coco de piaçava, prata e osso de boi (Gabriela Lisbôa)


Tratamento

Algumas técnicas específicas são empregadas no tratamento desses componentes que a biodiversidade brasileira generosamente disponibiliza para os nossos criadores. A radiação gama é uma das mais utilizadas pelo setor de joias, nos processos denominados esterilização e polimerização. A primeira retira a umidade do material, pra que não haja proliferação de organismos vivos, e a outra garante que o material tenha um maior tempo de duração.


 

Anel de ouro com capim dourado e safira (Meire Bonádio)


“As sementes, couros - enfim, todos os materiais - passam por uma ação que chamamos de beneficiamento de matéria-prima. São selecionadas, classificadas, depois passam por um processo de limpeza, impermeabilização e neutralização de fungos. Umas são cortadas em tamanhos padrões e outras ficam à espera de encomendas para peças exclusivas. A maioria de nossa matéria-prima já chega beneficiada, para darmos agilidade aos nossos pedidos”, afirma Rita Prossi.

Já o tratamento da madeira é fundamental para aumentar sua vida útil. A seiva da madeira verde é “trocada” por solução que contém elementos preservantes, o que a torna mais resistente a fungos, brocas e cupins. O creosoto e o pentaclorofenol são exemplos de produtos empregados, assim como outros, compostos por vários sais, como os ácidos arsênico, bórico, crômico e sulfatos de cobre e zinco, bicromato de potássio ou sódio, entre outros.

Gabriela Lisbôa diz que as sementes que utiliza já chegam tratadas pelas cooperativas. “As cascas de coco eu trato com óleos naturais para evitar mofo e fungos. Uso muito o óleo de eucalipto, evita a deterioração e também lubrifica, além de deixar a joia com um cheiro maravilhoso”, afirma, ressaltando que, como todo artigo delicado, a biojoia requer cuidados especiais: “Recomendo a meus clientes que mantenham a peça longe de temperaturas muito elevadas, não as deixem em caixinhas fechadas, não molhem e evitem contato com perfumes, para que sua vida útil se prolongue”, completa.

Leia também:

Gabriela Lisbôa: do cravo e canela às cascas e sementes

Amarjon Biojoias: grife mineira desenvolve joias utilizando folhas e escorpiões banhados a ouro

A Amazônia na joalheria de Rita Prossi


 

Fonte: Da Redação

Publicada em 08.10.2009

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