Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

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Central de Notícias - Capacitação profissional


MODA E DESIGN: A formação cultural para o designer de joias, por Patrícia Sant’Anna



Como pesquisadora de tendências sei que é fundamental frequentar cinemas, espetáculos de teatro e musicais, ficar em dia com o que grande parte da audiência assiste na televisão. Mas hoje me deterei em um aspecto específico: a frequência às mostras e exposições de arte e design. Qual a importância dessa prática? Ela alimenta sobremaneira processos criativos. Parece óbvio, mas não é. Em tempos de aceleração profunda do cotidiano, em que família, trabalho e lazer se misturam na virtualidade da internet, você já se perguntou quando é que realmente você se permite estar de férias? Quando desligamos o celular e não levamos tablet, laptop ou smartphones que nos deixam conectados a tudo que nos estressa no trabalho?

Ir a uma exposição – mesmo que seja uma blockbuster – nos tira desse mundo, afinal, as obras pedem para nos desacelerarmos, olharmos, nos acalmarmos, fitarmos, e enfim, não só apreciar e sorver, mas, enfim, contemplarmos algo. Essa quebra no ritmo é ótima, pois permite reordenações de pensamentos e sentido que de outra maneira não conseguiriam acontecer. Além de tudo aqui citado, devemos nos lembrar que nada substitui a experiência com a obra. Ouço isso desde a minha primeira aula de história da arte com o professor Jorge Coli (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp), lá nos anos de 1990 quando estava na graduação, numa sala escura, em que só a luz dos slides trazia a nós um – parcial – contato com a obra. Sim, parcial. A obra não é o que vemos na reprodução de um bom livro ou hoje em dia em uma imagem 3D de uma televisão de última geração. Em verdade, a obra é uma coisa, e sendo coisa, como diz Arnaldo Antunes (As Coisas):


as coisas tem peso, massa, volume

tamanho, tempo, forma, cor

posição, textura, duração

densidade, cheiro, valor

consistência, profundidade

contorno, temperatura, função

aparência, preço, destino e idade

sentido

as coisas não têm paz


Como sentir tudo isso se não a enfrentando de fato? Portanto, não substitua a frequência aos objetos que animam a sua criatividade. Vá ao teatro, frequente o cinema, viva espetáculos, frequente exposições e mostras de arte e design.

Não é possível ver tudo, eu sei, mas se esforce, organize sua agenda, descubra quais de seus amigos e parentes que são bons companheiros nestes momentos (uma boa companhia ajuda a não desistirmos), enfim, não se deixe ser solapado pelo cotidiano acelerado e multitarefas que vivemos hoje, pois é ilusório acharmos que ao termos acesso a dados somos bem ‘informados’, afinal, dados em si não são informação, informação é dado interpretado. Isto é, dados contextualizados e relacionados. Insisto, é necessário ter um tempo para processá-los, os dados entram se acomodam, para só então nos conectarmos a eles, e eles se ligarão a outros. A partir disso é que podemos ter novas ideias e soluções. Assim, do ponto de vista prático, é necessário as ‘escapadelas’ para ir a uma exposição, ao cinema, etc. não é para ir com a intenção de trabalho, mas sim com a intenção de sorver e sentir prazer com o que se vai enfrentar. Este momento de relaxamento e prazer é fundamental para o exercício da criatividade. A mente e todos os processos que nela existem necessitam de ‘ar fresco’, de um momento em que as formas de pensar possam experimentar novos caminhos.

A tal da ‘formação cultural’ que tanto é falada como primordial para um designer, é um processo. A cultura não é cristalizada, logo não há um momento em que a finalizamos em nós. Assim, é um hábito que deve ser cultivado, cuidado e fomentado não só em nós mesmos, mas em toda a equipe de criação, em toda a equipe da empresa. Saber, sentir e questionar o mundo a partir destas experiências artístico-culturais proporcionadas em exposições são fundamentais. Vá a uma galeria em que você nunca colocou os pés, quando estiver viajando, mesmo a trabalho, tente escapar e conhecer um novo museu, mesmo que não seja de arte. Você conhece o Museu do Futebol em São Paulo? Você já foi ao MASP ou ao Museu de Belas Artes esse ano? Conhece a galeria da Fiesp (que aliás está com uma exposição belíssima sobre joias do deserto)? Você conhece o(s) museu(s) da sua cidade? Quando viaja a trabalho você consegue se dar um breve tempo para ver uma exposição de arte e/ou design que esteja acontecendo no lugar em que você está? Pense em seus hábitos, eles devem ajudar você a ter uma vida melhor, e faz parte disso, fazer coisas que lhe deem prazer. Isso é base para ser um profissional equilibrado e criativo.



Patricia Sant’Anna, colunista de Moda & Design

 

Dra. em História da Arte, Ms. em Antropologia e Bel. em Ciências Sociais. Atua como Diretora de Pesquisa da Tendere (www.tendere.com.br) e líder do Grupo de Arte, Design e Moda da Unicamp. Atualmente leciona nas graduações de Comunicação na PUC Campinas, graduação em Design de Moda da ESAMC, e é coordenadora do curso de Pós-Graduação em Negócios da Moda do SENAC. Já deu consultoria de moda para o Ministério da Cultura, Itaú Cultural, Feninjer, IBGM, SENAC entre outras instituições ligadas à formação nos setores de moda, design e artes.


Coluna Moda & Design


Fonte: Patricia Sant'Anna

Publicada em 17.05.2012

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