Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

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Central de NotÝcias - Entrevistas


Entrevista: Rodrigo Ferreira da Silva, campeŃo do World Skills


A paixão pela ourivesaria levou Rodrigo Ferreira da Silva a vencer o World Skills, olimpíada do conhecimento de âmbito internacional.

Conheça a história de dedicação deste jovem carioca de 21 anos, que acaba de se mudar de cidade para estudar “Produção Joalheira”, curso com três anos de duração que acontece em São Paulo.


 

Rodrigo Ferreira da Silva mostra a medalha de ouro, conquistada no World Skills 2011


InfoJoia: O que te levou a estudar joalheria?

Rodrigo Ferreira da Silva:
O meu pai trabalha como recepcionista em uma das grandes empresas do setor, a H.Stern e todos os filhos de funcionários são convidados a fazer um tour pela empresa, para conhecer o ambiente de trabalho dos pais. Então eu fiz o tour e, quando chegou à área de joalheria, foi amor à primeira vista. Eu tinha uns 15 anos nessa época e estudava para ser cadete do Exército. Conforme o tempo foi passando eu percebi que não tinha afinidade com as funções de um cadete e conversei com a minha mãe sobre a minha vontade de ser joalheiro. Meus pais são separados e minha mãe é diarista, então eles imaginavam que eu seguiria uma profissão mais convencional. A minha mãe ficou um pouco desapontada, mas o meu pai encarou de uma maneira mais positiva. Então a minha mãe questionou como eu iria estudar, já que não tínhamos recursos e não sabíamos como obter bolsa, e comentou com uma colega de trabalho, a arrumadeira da casa, sobre o meu desejo de fazer esse curso de joalheria. A dona da casa ouviu a conversa e disse que ia pagar o curso para mim. E foi assim que eu consegui entrar no Curso Básico de Confecção de Joias do SENAI.

E como foi essa experiência?

No primeiro dia de aula eu já fiquei constrangido, porque os outros alunos do curso eram mais velhos e já tinham outras profissões – como advogados, arquitetos, etc. Passado esse choque inicial, eu fui tendo algum destaque na turma – acredito que por ser o mais jovem recebi mais atenção do meu professor. E eu pedia para ficar mais tempo na sala de aula, refazia os exercícios, repassava as lições – e valorizava cada vez mais a patroa da minha mãe por ter pago esse curso para mim. 

Depois de três meses de curso eu comprei prata e fiz o anel mais bonito que eu poderia ter feito – um ‘anel de madame’, um anel bem largo, todo boleado, bem grandão, e pedi para um amigo rodinar para mim. O anel ficou lindo e eu coloquei em uma caixa bem estilizada – e fui agradecer a senhora Irene.


 

Joia desenvolvida por Rodrigo durante a competição


Como você ficou sabendo sobre o World Skills?

Eu ouvi boatos nos corredores da escola dizendo que haveria uma olimpíada – e que o vencedor poderia ir para Londres, na Inglaterra. Na mesma época o meu professor, Armando Barbosa, chegou para mim e disse “Rodrigo, chega! Você fica todo dia pedindo para ficar até mais tarde, quer ficar mais tempo na aula, eu vou pedir para te colocarem nas Olimpíadas!”. Foi assim que eu cheguei ao World Skills.

Como foi a sua trajetória até chegar ao World Skills?

Primeiro eu participei do campeonato escolar, em 2009, com mais dois competidores – porque o campeonato tem limite de idade – e fiquei com a medalha de ouro. No campeonato estadual eu fiquei com a medalha de prata – competindo com os mesmos adversários do campeonato escolar, porque o SENAI era a única escola com curso de joalheria. Nesse campeonato, porém, os dois melhores classificados fazem uma nova disputa para definir qual dos dois é o melhor – e o campeão é indicado para representar o estado no campeonato nacional. Eu estudei muito para conseguir vencê-lo. No simulado, a nota mínima era 7 – o menino tirou 4 e eu tirei 7,1! Além da prova teórica, onde explicávamos o nosso planejamento de trabalho, tivemos que fazer a prática, divida em quatro dias – totalizando 22 horas. A cada dia criamos uma peça. No último dia, todas as peças criadas têm que se juntar e formar outra peça, que será avaliada em solda, furo, marcação, ajur, acabamento, perfeição, medidas... Essa nota garantiu a minha participação no campeonato nacional, representando o Rio de Janeiro – que sempre ficava em segundo lugar, perdendo para o Rio Grande do Sul. Nós fomos com muita gana. Eu trabalhei em um prisma com pingente giratório mas, no último dia, cometi um erro – deixei a peça cair dentro do ácido – e fiquei com a prata. O campeonato nacional é igual ao estadual, portanto eu poderia disputar novamente com o vencedor – que foi o representante do Rio Grande do Sul, novamente. Eu treinei cerca de oito horas por dia para evitar cometer erros como o do campeonato nacional e traçamos várias estratégias contra o nervosismo, principalmente. 

Depois de todo o treinamento, que durou cerca de seis meses, nós fomos para o desempate: agora éramos só eu e o gaúcho. Para o desafio foi selecionada a prova da Suíça, que tem um alto nível de dificuldade. Nós treinamos as provas propostas por todos os países, mas no dia do desafio elas são modificadas em 30% em relação ao que é apresentado, tem o fator surpresa. E nesse desempate finalmente eu ganhei! Foi nesse momento que eu senti o apoio da minha família e da escola toda, e comecei a perceber que sim, que eu poderia vencer o mundial. Além da medalha de ouro no nacional eu ganhei confiança e fiquei muito motivado a mostrar a joalheria brasileira no exterior. É interessante ressaltar que, em cada mundial, são escolhidas cinco propostas de cinco países. Cada um dos 14 países participantes leva uma proposta e, durante a Assembleia, cinco são selecionadas. No mundial de 2013 será utilizada uma das peças que eu fiz.


 

A medalha


Você adotou alguma estratégia especial para vencer as Olimpíadas do Conhecimento?

Eu fiz um treinamento muito forte e os meus mestres preparam estratégias especiais para que eu finalizasse as provas em quaisquer circunstâncias – me ensinando a consertar possíveis erros com solda, me ajudando a planejar o tempo de execução de cada prova. Criamos técnicas diferentes para procedimentos que são requeridos, essas coisas. Eu tinha um plano B para o caso de alguma coisa dar errado – e isso se tornou um aprendizado para a minha vida. E o SENAI também contratou os cursos de uma assessoria especializada para me treinar. 

E como foi a disputa do World Skills?

A última medalha do Brasil no mundial tinha sido a prata. Quando fomos para Londres já tínhamos traçado as estratégias – principalmente o planejamento, pois todas as provas das Olimpíadas são cronometradas, eu tinha que ser muito pontual, e tinha um planejamento na mente e no papel. Quando eu cheguei lá dei de cara com 14 experts – o que foi algo muito grandioso! Além disso os competidores eram muito inteligentes e muito aptos para executar a prova.

No primeiro dia de prova – o dia da ambientação, quando são sorteadas as arquibancadas, determinado o local de cada competidor e entregue o material que cada um irá usar, eu fiquei com a mesa nove. Comecei a treinar e já fui informado sobre qual prova teria que desenvolver na competição. Isso foi muito bom porque, um dia antes de iniciar a prova eu já pude planejá-la. Caiu a peça da França – sendo que havia um aluno francês na competição. Essa peça foi a última que eu treinei antes de ir para Londres. Eu fiquei em primeiro lugar nesse primeiro dia, mas o meu treinador não me deu essa informação. Ao contrário: ele ficou me dizendo que eu estava muito ‘mole’, que se eu continuasse nesse ritmo não teria condições de ganhar o mundial – foi a maneira que ele encontrou de me motivar, de me fazer dar o melhor de mim. Essa técnica surtiu efeito, e eu me sagrei campeão! 

Tirando a comida de lá - que é horrível! - esse foi um período que valeu muito a pena. E eu creio que esse ouro não foi só meu, ele foi totalmente da equipe, porque os caras são muito bons: Werner, Ballmann, Denise Berman, Claudinei Rempel, Adriano, e, claro, Gregório Garcia, meu professor que me ensinou a base. Um joalheiro hoje que não souber limar, lixar bem não é joalheiro!

Como foi que você decidiu estudar no IED? Você recebeu um convite?

Não. Quando eu voltei de Londres eu decidi buscar cursos. Pela internet encontrei o Curso de Produção Joalheira do Istituto Europeo di Design, que tem uma proposta de graduação em três anos. Eu conversei com a minha orientadora no SENAI e ela me deu toda a força do mundo, pois a escola é muito boa. Eu aproveitei o fato de ter família aqui em São Paulo e decidi vir fazer o vestibular, para o qual fui aprovado. As aulas começam em fevereiro. Vou começar uma nova parte da vida.


 

Rodrigo ao lada da Presidente da República, Dilma Rousseff


Essa nova parte da vida teve início no encontro com a Presidente da República?

Eu tive um momento em Brasília com a Dilma e com alguns deputados onde falamos sobre educação, onde recebemos a gratidão por todos que competiram na World Skills. Foi um momento muito importante e, além dos agradecimentos, fomos honrados com uma bolsa de estudos, que irá garantir o nosso futuro. Agora a Olimpíada do Conhecimento foi incluída no mesmo nível que o ENEM e as Olimpíadas de Matemática. Então está sendo maravilhoso.

E qual é a sua expectativa em relação ao trabalho?

Eu penso em fazer estágio em empresa – para ganhar algum dinheiro e poder me manter aqui em São Paulo. Sou especializado em banca e fiz o curso básico de desenho para aprender a interpretar a peça. 

Como você imagina que será o seu futuro? O que pretende fazer?

Pretendo passar tudo o que vou conquistar na minha vida. A cerca de estudo eu vou “com tudo” para o IED, quero aprender com grandes profissionais porque eu tenho uma prática na banca, então quero conhecer a teoria, o design, a história da joalheria e quero iniciar um estágio em uma empresa, para me ajudar a conhecer o dia a dia na indústria. O que mais me dá um friozinho na barriga, nesse momento, é São Paulo, porque São Paulo é muito diferente do Rio, aqui todos os lugares são longe... (ri). Mas acredito que o que mais vai mudar agora é o treinamento, porque eu vejo a faculdade como um treinamento. Antes era “desenho-joia”, agora vou abranger outros segmentos da minha profissão. O bom da joalheria é que você aprende muito trabalhando, e eu acredito que vou conseguir conciliar trabalho e estudo - eu tenho que conseguir!

Fonte: Da RedašŃo

Publicada em 27.01.2012

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