Sábado, 25 de Maio de 2013

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Autoengano, por Ecio Morais


Praticamente todos os joalheiros que eu conheço defendem um setor de joias e gemas formalizado, profissional e ético. Da mesma forma, a maioria de nossos compatriotas defende um país livre da corrupção e civilizado no trânsito.  Por que então os resultados não condizem com os nossos desejos? Para o consumo externo somos todos abnegados defensores do bem comum. Juntos, o resultado das convicções individuais acaba não se traduzindo no sonho coletivo idealizado. O todo passa a ser menor que a soma das partes.

Como a “coisa” não acontece, imediatamente buscamos o culpado. Temos na ponta da língua uma lista interminável de responsáveis pelas nossas mazelas. Inimigos reais ou imaginários: o governo, os impostos, a China, a entidade de classe, o sindicato de trabalhadores, a sogra, o vizinho, o colega de trabalho, o concorrente, a companheira (o), etc. A culpa recai sobre o mundo. Ao mesmo tempo, temos uma dificuldade quase intransponível em refletir sobre a parcela de responsabilidade naquilo que nos aflige.

Muitas vezes ao nos defrontarmos com ameaças contra as quais não conseguimos lidar, erguemos uma espécie de escudo psíquico, um mecanismo de auto defesa natural que nos ajuda a lidar com o fracasso ou com o imobilismo. É o famoso autoengano. Não investir na formação intelectual e profissional e queixar-se da falta de sorte no mercado de trabalho é um clássico famoso do autoengano.

É fato, por exemplo, que a indústria brasileira como um todo e o setor joalheiro em particular estão diante de desafios importantes como a feroz concorrência internacional, a elevada carga tributária, a escassez e falta de preparo dos recursos humanos, dentre outros. É igualmente desafiador, no entanto, identificarmos no intenso nevoeiro os caminhos que nos levarão a um porto seguro. O quanto de esforço para superar estes desafios dependerá de nós mesmos, de nossa dedicação, de nosso discernimento e o quanto dependerá do acaso e dos outros?

Não vemos, por exemplo, o tema da inovação, da qualificação dos recursos humanos, do aumento da produtividade e do investimento em design tão presentes na agenda do empresariado brasileiro. Não é nossa intenção subestimar a importância do fator tributário, da concorrência desleal e do adverso ambiente de negócios no Brasil. Cabe, porém uma pergunta: raciocinando sobre hipótese, e se tivéssemos um ambiente de negócios desburocratizado, com baixa carga tributária e predominantemente formal? Este ambiente seria positivo tanto para a indústria nacional como para o concorrente estrangeiro. Importadores poderiam trazer produtos de forma legal e altamente competitiva. Neste caso, onde estaria o diferencial competitivo da indústria nacional? Na inovação, no design e na produtividade certamente.

Analisando o quadro de expositores de uma FENINJER de 12 anos atrás, por exemplo, nós observamos, que dos 123 expositores existentes naquela época 39 empresas já não atuam no mercado. Ou seja, 32% das empresas fecharam ou mudaram de ramo. Por outro lado, um número equivalente de empresas surgiu e prosperou neste mesmo período ocupando o espaço daquelas que deixaram o mercado. Os dez maiores expositores da FENINJER de uma década atrás ocupavam 590 m² de feira, atualmente as dez maiores ocupam 760 metros quadrados. Do “ranking” das dez mais em 1999, apenas quatro empresas permanecem nesta classificação em 2011.

Devemos lembrar que esta troca de posições se deu no mercado interno, em condições isonômicas de competição. Sobreviveu o mais apto. Sobreviveu aquele que investiu em inovação, que cuidou da gestão, e que investiu no design. O desafio agora é estar preparado para a concorrência internacional, mais forte, que possui maior escala e um ambiente de negócio muito mais favorável em seus países de origem. Vai ser fácil? Certamente que não. Como dizia Martin Luther King: "A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio." E isto não tem nada a ver com refugiar-se no autoengano.

(Publicado originalmente no IBGM INFORMA número 68)

Leia outros artigos assinados por Ecio Morais na coluna Conectado.

Fonte: Ecio Morais

Publicada em 31.10.2011

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