Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
Central de Notícias - Mercado
Dada a natureza de sua principal matéria prima (ouro), o setor joalheiro vive intensamente os periódicos sobressaltos da economia mundial. Ativo real e “porto seguro” em tempos de incertezas, as cotações do ouro oscilam na razão direta das instabilidades que abalam os mercados.
Recentemente o metal vem quebrando recordes nominais sucessivos e infelizmente, nada indica que teremos alguma melhoria, ao menos no curto prazo, nas condições do clima financeiro. As dificuldades atuais são um prolongamento da crise de 2008. Naquela ocasião, para salvar o sistema financeiro de uma quebradeira geral, os governos dos países ricos injetaram trilhões de dólares no mercado. A conta chegou agora em 2011 e os governos, como última instância de salvação, não tem a quem recorrer.
A crise fiscal gêmea, americana e européia, é estrutural, grave e de difícil solução política. O mundo vive um “dilema de Sofia”: cortar os gastos públicos e reduzir a demanda agregada poderá significar uma nova recessão econômica; não cortar e não ajustar as receitas às despesas poderá resultar em uma crise bancária que dificultará, ainda mais, o financiamento das dívidas dos estados. No futuro próximo, portanto, o ouro continuará refletindo estas incertezas presentes na economia.
No mercado doméstico, os alicerces da economia brasileira sofrerão os efeitos da crise mais cedo ou mais tarde. Nosso principal patrimônio (o mercado interno) será implacavelmente assediado e a expansão de nossas exportações de produtos primários poderá se reverter.
No mercado joalheiro, paradoxalmente, a nossa alta carga tributária e a burocracia para a importação de joias e gemas, se tornaram uma trincheira importante na “defesa” de uma invasão definitiva do mercado interno pelo contrabando ou pela importação legal.
Apesar do quadro de pessimismo reinante no mercado mundial, a situação do Brasil é relativamente confortável. O país possui um mercado interno sólido e em expansão, o governo parece estar comprometido em manter a economia crescendo e as reservas cambiais representam uma importante fortificação de US$ 350 bilhões. Caso o governo Dilma Roussef invista em um ajuste fiscal (corte de gastos) e em uma redução agressiva dos juros o país poderá superar a turbulência sem grandes traumas.
Neste sentido, para o mercado de joias, nós podemos imaginar que teremos um mercado consumidor relativamente preservado para o final do ano. O problema é que teremos duas variáveis pressionando o preço do ouro para cima no mercado interno (uma eventual alta do dólar em função da queda nos juros e a cotação internacional do metal pressionada pela crise).
Diante deste cenário, a estratégia mais recomendável é prudência, segurar os custos e investir em joias mais leves, talvez enriquecendo os produtos com as gemas brasileiras. De qualquer forma, o importante é segurar firme no manche que a crise vai passar.
Se alguém me perguntar qual a saída ou o que fazer, eu teria dificuldade de responder. Porém uma coisa certa: a saída é coletiva. O empresariado deve estar unido em torno de um projeto nacional, em torno de suas feiras e de suas entidades de representação.
Os flamingos só procriam quando estão em grupos e se sentem seguros. A vida animal sempre foi uma fonte inesgotável de inspiração para um homem cada vez mais inseguro de sua pretensa superioridade.
Leia outros artigos assinados por Ecio Morais na coluna Conectado.

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